Marina Pumar: entre o esporte, a influência e a construção de novos negócios
Divulgação Marina Pumar construiu sua trajetória em movimento. Primeiro pelo esporte, que transformou sua relação com o próprio corpo e com os limites que acreditava ter. Depois, pela internet, onde compartilhou processos, desafios, conquistas e também as tentativas que aconteceram antes dos resultados. Ao longo de mais de uma década, essa exposição deixou de representar apenas uma audiência e passou a formar uma comunidade que acompanha de perto suas escolhas e descobertas.
Atleta de endurance, empresária e fundadora do MP360, Marina transformou uma experiência pessoal em um negócio que já reuniu mais de 10 mil mulheres e hoje conta com mais de 400 treinos na plataforma. Sua trajetória também revela uma mudança na própria lógica da influência: da produção de conteúdo para a construção de uma marca com estrutura, produtos, equipe e visão de longo prazo.
Nesta entrevista, Marina fala sobre a mulher por trás da imagem solar das redes sociais, a disciplina que levou do triatlo ao empreendedorismo, os desafios de transformar influência em negócio e a importância de preservar a confiança de uma comunidade. Também revela como enxerga os próximos anos, entre novos negócios, grandes desafios esportivos, vida pessoal e o desejo de construir uma trajetória que não seja apenas admirável por fora, mas que faça sentido para a vida que escolheu viver.

1. Marina, antes da empresária, da atleta e da mulher que hoje reúne uma comunidade tão grande ao seu redor, quem era você no início dessa trajetória e quais acontecimentos mais ajudaram a construir a mulher que você é hoje?
Eu acho que uma característica minha que existe desde o começo é não ter muito medo de tentar. E, principalmente, não ter medo de ser vista tentando. Parece a mesma coisa, mas não é. Muita gente até tem coragem de começar alguma coisa, desde que ninguém esteja olhando enquanto ela ainda não é boa.
Eu construí praticamente toda a minha vida na frente das pessoas. Elas me viram começar coisas em que eu era péssima, mudar de ideia, errar, abandonar alguns caminhos e insistir muito em outros. Me viram começar no esporte, virar atleta, empreender, criar produtos, colocar projetos no mundo sem saber exatamente onde eles iam chegar.
Mas, antes de tudo isso, eu sempre fui muito inquieta. Sempre tive uma vontade enorme de quebrar os padrões do que esperavam que eu fizesse ou de como a vida deveria ser. E sempre fui muito entusiasmada com a ideia de potencial: até onde eu poderia chegar se realmente me dedicasse a alguma coisa? Acho que continuo sendo movida por essa pergunta até hoje. Eu gosto de descobrir do que sou capaz — e talvez por isso esteja sempre inventando um próximo desafio.
2. Você já falou sobre ter vivido uma relação difícil com a alimentação e, posteriormente, encontrou no esporte um novo caminho. Como aconteceu essa transformação e em que momento o esporte deixou de ser apenas uma prática e passou a fazer parte da sua identidade?
Por muito tempo, minha relação com exercício e alimentação foi muito ligada à estética. Eu treinava para gastar calorias, comia pensando no que aquilo faria com o meu corpo e existia sempre uma busca por ser mais magra. Acho que muitas mulheres da minha geração cresceram acreditando que esse era o objetivo final.
O esporte mudou completamente a pergunta. Em vez de “como eu quero que meu corpo pareça?”, eu comecei a pensar “o que eu quero que meu corpo seja capaz de fazer?”. Quando você quer correr mais rápido, pedalar por horas, completar uma prova, você entende que precisa alimentar, recuperar e fortalecer esse corpo. Você começa a respeitá-lo de outra forma.
E acho que virou parte da minha identidade quando eu percebi que o esporte estava mudando muito mais do que o meu físico. Mudou minha rotina, minha cabeça, as pessoas ao meu redor, as viagens que eu fazia e até a maneira como eu enxergava meus próprios limites. Hoje, quando olho para o meu corpo, ainda existe vaidade — claro que existe —, mas existe principalmente orgulho de tudo que ele já me permitiu viver.

3. Triatlo e provas de endurance exigem uma capacidade muito particular de continuar quando o corpo e a mente pedem para parar. O que a Marina atleta ensinou à Marina empresária sobre disciplina, resiliência e tomada de decisão?
O esporte me ensinou principalmente que nem tudo que você sente precisa determinar o que você faz. Tem dia que eu acordo sem vontade de treinar e treino. Tem momento em uma prova em que a minha cabeça diz que eu não consigo continuar e eu continuo. Disciplina, para mim, começou a ser muito mais sobre isso do que sobre motivação.
E empreender exige exatamente essa capacidade. Tem dia em que você duvida de uma decisão, tem projeto que não funciona, lançamento que não sai como imaginou, períodos em que parece que você está se esforçando muito e avançando pouco. Se você reagir emocionalmente a cada um desses momentos, você desiste de tudo o tempo inteiro.
Talvez o maior aprendizado do endurance tenha sido entender que um momento ruim não significa necessariamente que tudo deu errado. Você ajusta o ritmo, resolve o problema que está na sua frente e continua. Na empresa, tento fazer exatamente a mesma coisa.
4. Existe uma imagem muito solar associada a você — energia, movimento, viagens, esporte, amigos. O que existe por trás dessa leveza que as pessoas talvez não enxerguem nas redes sociais?
Acho importante dizer que essa leveza não é uma personagem. Eu sou realmente uma pessoa muito entusiasmada com a vida. Gosto de gente, de viajar, de festa, de esporte, de inventar programa, de estar em movimento. Eu tenho uma curiosidade muito grande pelo que ainda posso viver.
Mas existe também uma Marina extremamente exigente consigo mesma. Eu me cobro muito, tenho dificuldade de fazer qualquer coisa pela metade e durante muito tempo confundi dar conta de tudo com ser forte. Então, por trás dessa energia, também existem cansaço, insegurança, frustração e momentos em que eu simplesmente não dou conta.
Só que eu nunca gostei de fazer da dificuldade a minha identidade. Acho que talvez essa seja a parte que as pessoas confundem com uma vida sempre leve. Não é que as coisas ruins não aconteçam comigo. Eu só não quero que elas ocupem um espaço maior do que tudo de bom que também está acontecendo.
5. Em que momento você percebeu que havia deixado de construir apenas uma audiência e começado a construir uma comunidade — e que essa comunidade poderia também se transformar em um negócio?
Acho que isso aconteceu antes mesmo de eu saber dar o nome de comunidade. Eu comecei na internet há mais de dez anos compartilhando a minha vida e, em algum momento, percebi que as pessoas não queriam só assistir ao que eu fazia. Elas queriam fazer junto.
Começaram a surgir mulheres que treinavam porque me viam treinando, que mudavam hábitos, que se incentivavam e criavam relações entre elas. E acho que essa é a grande diferença: audiência acompanha você; comunidade se sente parte de alguma coisa.
O MP360 nasceu muito dessa percepção. Eu já tinha milhares de mulheres me perguntando todos os dias o que fazer, como começar, como ter constância. Então o negócio não nasceu primeiro como uma ideia comercial. Nasceu de uma necessidade que eu conseguia enxergar todos os dias na minha própria comunidade. A empresa veio como uma forma de transformar influência em algo mais concreto e, principalmente, mais duradouro.

6. O MP360 representa uma passagem importante de influenciadora para fundadora. Quais foram as decisões mais difíceis para transformar uma ideia ligada à sua própria experiência em uma empresa com estrutura, equipe, produtos e milhares de mulheres dentro da comunidade?
Acho que uma das coisas mais difíceis foi entender que, para o MP360 crescer, ele precisava deixar de depender da Marina para tudo. Quando uma empresa nasce da sua imagem, é muito fácil centralizar: você quer aprovar tudo, participar de tudo, decidir tudo. Só que chega uma hora em que você percebe que aquilo que fazia o negócio crescer no começo passa a limitar o crescimento.
Então eu precisei aprender a contratar pessoas melhores do que eu em várias coisas, delegar de verdade e aceitar que nem tudo precisa ter a minha mão para ter a minha essência.
E também precisei aprender a separar influência de negócio. Na internet, eu posso acordar com uma ideia, gravar e postar. Em uma empresa, uma ideia envolve investimento, tecnologia, equipe, atendimento, margem, experiência da cliente. Eu continuo sendo muito intuitiva, mas hoje entendo que uma boa ideia só vira um bom negócio quando consegue funcionar para além do entusiasmo de quem teve a ideia.
7. Quando você olha para o MP360 hoje, quais números melhor traduzem o tamanho do negócio — número de alunas, equipe, crescimento, produtos ou outros indicadores — e onde você pretende levar a empresa nos próximos anos?
Mais de 10 mil mulheres já passaram pelo MP360 e hoje são mais de 400 treinos dentro da plataforma. E talvez o que mais me orgulhe seja perceber que o negócio deixou de ser um único produto. Hoje existe todo um ecossistema ao redor dessa mulher, com diferentes modalidades, corrida, desafios e experiências.
Mas eu não quero que o MP360 seja conhecido para sempre como “o aplicativo da Marina”. Quero construir uma marca que tenha força própria. A minha imagem sempre vai fazer parte da história e da essência, mas a empresa precisa ser maior do que eu.
Nos próximos anos, quero ampliar cada vez mais esse ecossistema de saúde e bem-estar feminino. Meu objetivo é que uma mulher consiga entrar no MP360 em diferentes momentos da vida e encontrar ali ferramentas para continuar se movimentando. Para mim, o crescimento mais interessante é esse: construir uma marca que acompanhe mulheres.
8. Você construiu relações com diferentes marcas ao longo da carreira. Hoje, o que determina uma parceria realmente relevante para Marina Pumar e como você equilibra oportunidade comercial com a necessidade de preservar a confiança da sua comunidade?
Depois de mais de dez anos trabalhando com internet, eu entendi que o meu maior ativo não é o número de seguidores. É a confiança que construí com eles. E confiança é uma coisa muito demorada para construir e muito rápida para perder.
Então, hoje, a primeira pergunta que eu faço é: isso cabe de verdade na minha vida? Porque eu não quero precisar criar uma rotina fictícia para conseguir vender um produto. As melhores parcerias que tenho são justamente aquelas em que a marca acaba aparecendo naturalmente porque eu realmente uso, acredito e consigo falar sobre ela durante muito tempo.
Também passei a valorizar muito mais relações de longo prazo. Para mim, influência fica muito mais forte quando existe repetição e história. Minha comunidade sabe quando uma marca está comigo há anos, quando ela esteve em diferentes fases da minha vida. Isso gera uma credibilidade que nenhuma campanha isolada consegue comprar.

9. Seu casamento reuniu marcas e parceiros dentro de um momento extremamente pessoal. Como essas conexões foram construídas e o que fez você entender que determinadas marcas poderiam fazer parte desse capítulo da sua vida de maneira genuína?
Eu tinha uma preocupação enorme em não transformar o meu casamento em um evento publicitário. Era um dos momentos mais importantes da minha vida e eu queria olhar para ele e enxergar a nossa história, não uma sequência de entregas… alem de querer viver sem me preocupar com isso.
Por isso, a régua para as parcerias foi muito simples: essa marca ou esse produto estaria aqui se não existisse publicidade? Muitas das marcas que participaram já faziam parte da minha vida, tinham uma relação comigo há bastante tempo ou entravam naquele momento de uma maneira realmente natural.
10. Hoje você está dos dois lados dessa relação: é uma personalidade procurada por marcas e, ao mesmo tempo, uma empresária construindo a própria marca. Estar do outro lado mudou a maneira como você entende influência, marketing e o valor real de uma comunidade?
Muito. Acho que ser empresária me fez entender, inclusive, que alcance e influência são coisas completamente diferentes.
Quando você está do outro lado e é você quem precisa fazer alguém conhecer, desejar e comprar o seu produto, começa a olhar para métricas que não aparecem publicamente no Instagram. Não é só quantas pessoas viram. É quantas confiaram o suficiente para agir, quantas compraram novamente, quantas indicaram para uma amiga, quantas permaneceram.
E isso mudou a maneira como eu enxergo meu próprio trabalho como influenciadora. Hoje eu valorizo muito menos o pico de atenção e muito mais a capacidade de construir confiança ao longo do tempo. Para mim, uma comunidade forte não é aquela que simplesmente presta atenção em você. É aquela que confia na sua curadoria porque sabe que você também sabe dizer não.
11. Casamento, empresa, esporte, exposição pública e uma rotina intensa aconteceram praticamente ao mesmo tempo. Como você administra tantas versões de si sem perder aquilo que considera essencialmente Marina?
Eu parei de acreditar muito nessa ideia de equilíbrio perfeito. Não existe uma Marina que consegue ser 100% atleta, 100% empresária, 100% esposa, 100% amiga e ainda estar 100% disponível na internet todos os dias.
Existem temporadas. Quando estou preparando uma prova importante, o esporte ocupa mais espaço. Em um lançamento, a empresa ocupa. No casamento, obviamente minha vida pessoal pediu muito de mim. E eu precisei aprender a não sentir culpa toda vez que uma área não estava recebendo a minha versão máxima.
O que tento não negociar são as coisas que me mantêm sendo eu: movimento, pessoas que amo, viagens, trabalho e espaço para viver coisas novas. Acho que me perderia muito mais tentando dar conta perfeitamente de todas as minhas versões.
12. Depois de tudo o que você já construiu, qual é a dimensão da sua ambição hoje? Quando pensa nos próximos cinco ou dez anos, que mulher e que empresária Marina Pumar deseja se tornar?
Eu continuo sendo muito ambiciosa, talvez até mais. Mas acho que a natureza dessa ambição mudou. Durante muito tempo existia um pouco de “eu quero provar que consigo”. Hoje existe muito mais “eu quero descobrir até onde consigo chegar”.
Quero investir em empresas, quero que o MP360 cresça, quero criar outros negócios, continuar vivendo desafios grandes no esporte e me colocar em lugares em que ainda sou iniciante.
Nos proximos 5 anos, também já quero ocupar o papel de mãe e entender também como conectar esse universo com o que vivo hoje Mas existe uma coisa que ficou muito importante para mim: eu não quero construir uma vida incrível no papel e não ter tempo de vivê-la.
Para mim, sucesso precisa caber dentro de uma vida que eu também queira viver.





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