Darfiny
A Cegueira do Talento
Blind Van GoghEsse texto, para mim, é quase uma autobiografia.
Quem nasce com um dom artístico e decide se dedicar a ele na vida adulta provavelmente já ouviu de alguém próximo: "Ih, vai passar fome." Isso acontece porque a imensa maioria dos artistas não consegue viver apenas da própria arte.
Um estudo da Applied Partnership (Reino Unido) mostrou que, em 2024, apenas 30% dos artistas entrevistados recebiam renda regular proveniente da própria prática artística. Isso na Europa, berço da arte. No Brasil, um estudo sobre a permanência nas ocupações artísticas, utilizando dados da PNAD Contínua entre 2012 e 2022, mostra que a maioria dos artistas recebe entre um e três salários mínimos, atua predominantemente na informalidade e apresenta alta rotatividade profissional.
No mercado musical, há um dado ainda mais impressionante. Segundo estatísticas do Spotify, existem aproximadamente 12 milhões de artistas na plataforma. Em 2024, apenas 0,6% geraram pelo menos US$ 10 mil em royalties ao longo do ano.
Por que será que o artista não sabe ganhar dinheiro?
Existe um padrão histórico muito interessante que ajuda a responder essa pergunta. Durante quase toda a história da arte, o artista não era responsável por vender sua obra ao mercado. Havia sempre alguém exercendo esse papel de mediação econômica.
Van Gogh é frequentemente citado como o exemplo do artista que morreu pobre. Em vida, há registro da venda de apenas uma pintura, negociada por seu irmão Theo, que atuava como marchand. Se perguntássemos ao próprio Van Gogh quanto valia o seu trabalho, é provável que respondesse: nada. Afinal, quem cria nem sempre consegue enxergar o valor econômico da própria criação.
Isso revela um fenômeno curioso: o viés psicológico da familiaridade. Quanto mais natural uma habilidade é para nós, mais tendemos a subestimá-la. O que fazemos com facilidade parece simples, quando, na verdade, é raro.
Para o artista, justamente porque seu talento lhe é natural, ele tende a acreditar que também é comum. O que realiza com aparente facilidade parece não exigir esforço e, por isso, perde valor aos seus próprios olhos. Muitos artistas esquecem que aquilo que lhes parece simples é, para a maioria das pessoas, impossível.
Mas, enquanto muitos artistas não conseguem enxergar esse valor, o mercado enxerga. O mercado de luxo é talvez o maior exemplo disso.
O luxo só existe porque existe artesania. Ele transforma o raro e o escasso em desejo por meio do talento humano. Por trás das grandes maisons, dos relógios mais cobiçados, da alta-costura e das peças mais exclusivas, estão mãos de artistas e artesãos capazes de produzir aquilo que poucos no mundo conseguem criar.
É por isso que a arte é, em sua essência, uma expressão do luxo. Não pelo preço que alcança, mas pela singularidade que carrega. O curioso é que esse mesmo talento, tão valorizado quando inserido em uma grande marca ou em um contexto de alto padrão, muitas vezes é subestimado pelo próprio artista quando se trata da sua própria obra.
Talvez o desafio não seja convencer o mercado de que a arte tem valor. O mercado já sabe disso. O desafio seja convencer o artista.
A dificuldade aumenta quando consideramos que, hoje, espera-se que o artista seja, ao mesmo tempo, criador, gestor, vendedor, estrategista, comunicador e empresário. O problema não é a falta de talento. É a ausência de competências empresariais.
O mercado remunera, sim, o talento, mas sempre por meio do valor percebido. A forma como o artista se apresenta, a qualidade do seu trabalho, sua comunicação e a estética que constrói ao redor da própria obra influenciam essa percepção. Tudo isso importa. Mas o que sustenta a estética é a postura.
Existe uma diferença entre ser e parecer. Na era digital, parecer é fácil. Qualquer pessoa pode construir uma imagem sofisticada, elegante ou exclusiva. O difícil é sustentar essa imagem nas pequenas decisões do dia a dia.
Não adianta comunicar raridade e dizer sim para tudo. Não adianta falar em exclusividade e aceitar qualquer permuta. Não adianta defender excelência e conceder descontos sem critério ou aceitar receber "quando der". A forma como você negocia comunica tanto quanto a obra que você produz.
Talvez o maior erro do artista seja acreditar que cobrar pelo próprio trabalho diminui a pureza da arte. Não diminui. Pelo contrário. Quando um artista não reconhece o valor daquilo que cria, dificilmente conseguirá convencer alguém a reconhecê-lo.
Arte nunca foi incompatível com dinheiro. O que sempre existiu foi uma distância entre criar valor e saber sustentá-lo. Quem aprende apenas a criar faz obras. Quem aprende também a atribuir valor a elas constrói uma carreira.




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