Darfiny
O Especialista em Repetição
Gagosian Quarterly Spring 2026Você não gosta de chuchu ou não gosta da ideia de gostar dele?
Todo mundo já se negou a comer algo por incômodo com a aparência daquele alimento. E todo mundo já ouviu, em algum momento da vida, a mãe dizer: “você precisa pelo menos experimentar”. Ainda assim, adultos, continuamos reproduzindo um comportamento infantil: dizer que não gostamos de algo sem nunca nem ter provado.
Já não é de hoje que o mundo foi dividido em dois lados, e com isso nós aprendemos a rejeitar ainda mais o que não gostamos ou não entendemos. Ao mesmo tempo, chegamos a um momento em que somos uma sociedade extremamente produtiva, mas cada vez mais padronizada. Coincidência? Não.
Isso acontece porque sua intolerância anda de mãos dadas com a sua falta de criatividade.
Você passa a ler apenas sobre o seu mercado, conversa apenas com pessoas da sua área, visita apenas lugares relacionados ao que faz e consome apenas conteúdos que confirmam aquilo de que você já gosta ou aquilo que já sabe.
E então acontece algo curioso: você se torna especialista em repetir.
Diante disso, é claro que qualquer IA será mais brilhante do que você. Mas você já se perguntou por que admiramos tanto as respostas da inteligência artificial? Bom, para começar, suas respostas são imparciais. A IA não tem lado, mas se utiliza de tudo o que existe no mundo para construir suas respostas. Em termos de criatividade, ela possui a matéria-prima da criação: repertório.
Criatividade não nasce da repetição. Criatividade nasce do encontro entre referências diferentes. Todo criador precisa de repertório. E repertório não se constrói apenas estudando o seu próprio assunto. Ele surge quando você entra em contato com o inesperado, com o novo.
Só que você não é católico, então se recusa a visitar a Capela Sistina. Com isso, se priva de apreciar uma das mais magníficas criações humanas do Renascimento. Se priva de ter contato com Michelangelo, Botticelli e vários outros artistas geniais porque “não concorda com a religião”. Ou então se priva de referências estéticas, visuais e arquitetônicas encontradas em uma mesquita do Oriente Médio porque “não é muçulmano”.
E daí?
É por isso que acredito que, em tempos como os nossos, viajar é uma das formas mais valiosas de estimular a criatividade. Diferenças culturais, mesmo que pequenas, exigem que você saia do seu habitat natural e experimente o novo. E é justamente aí, no novo, que mora a expansão de um repertório que servirá de inspiração e referência para você criar qualquer coisa.
Permitir-se viver novas experiências e conhecer o novo não significa mudar de opinião sobre algo ou se converter a algo que você não é. Significa apenas permitir que o seu cérebro armazene novas informações.
Vou confessar algo particular.
Eu trabalho com arte, você sabe, mas tenho muita dificuldade em apreciar arte moderna. Não gosto. Minha formação artística se deu a partir dos estudos do clássico, do Renascimento, da origem de tudo, e isso acabou moldando a forma como enxergo o mundo.
E veja bem, não estou buscando mudar de opinião. Mas estou me permitindo entender por que alguém achou uma boa ideia pegar um mictório e chamá-lo de arte em algum momento da história.
É legítimo ter preferências, desde que elas não o tornem intolerante, pois seria um enorme desperdício intelectual.
A principal mensagem deste texto é mostrar que vivemos um tempo que precisa desesperadamente de criatividade. Tudo está muito parecido. Tudo está muito igual. E, sejamos sinceros, tudo está ficando um grande saco.
Está em nossas mãos permitir que o novo surja por meio das nossas ideias.
Só precisamos parar de nos comportar como crianças e experimentar logo esse chuchu.




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